I
Daqui este mar inunda-me de ilhas
Dos que quiseram o sonho, cansaço
A subir das espumas e sabê-lo.
Daqui este mar define-me anseios
Da caravela de onde venho e vou.
Daqui este mar um lugar remoto,
De tanto estar nele o fado a querer
Que eu navegasse atento, sem tremor,
E lambesse o sal de meus sentimentos
Esperançosos de pisar na terra
Que me acenava com as suas riquezas.
Daqui este mar fado vazando veia,
De repente a Pátria na onda do mito
O azul mais vasto a terra inteira visse.
II
Um doido que estranhou sua
própria alma,
Fingidor que, na hora abissal
ou pasma,
Como verdade chegou a fingir
Ser dor o que dentro sente; a
urdir
Que tudo vale a pena se a
alma não é
Pequena, grande ergue-se no
poema,
Que o serve de metafísica
extrema.
Traduz na frase grave como é
Ser genial, fruto de
heterônimos
Em diversos enredos de nós
mesmos,
Nas vozes todas em que sonhos
pomos.
Triste passageiro, que insone
chora,
Esse Apolo no som de sua
lira,
Apegado à noite final que o
espera.
III
Lá na minha aldeia
Tem um rio só
De sonho, melhor
Que o Tejo, maior
Que o Nilo. Meu rio,
Que comigo traça
Castelos de amor,
O de minha aldeia.
Brilha volta e meia
Nos cachos do sol,
No leito do eterno
Onde sempre leva
Nas águas correntes
Meus versos com flor.
IV
Tocador de lira. Cordas sentem
Sustos e surpresas na
passagem
Do infante, no íntimo do
homem, na vida
Fadada nos desvãos da alma
sentida.
É belo o som que vem dessa
música,
Fala do tecido duma túnica
Que se mede nas imagens das
dores,
Paredes de tristezas e
clamores
Misturados do que é, foi e
será.
Círculo de tormentos no
mundo
Enquanto vê e deste quer
falar.
As cartas de amor pulsam em
degredo,
Mostram falhas da vida assim
disposta,
Dos que vivem sozinhos sem
resposta.
V
Amargura, desgraça, solidão.
Os deuses também moram no meu
ermo,
Sabem do meu fado nesse desterro,
De onde procedo na velha ilusão
De que tudo emerge dos
sentimentos,
Da esperança de fortes
movimentos.
Parecem deter-se nessa poeira
Do tempo, rumo à névoa
derradeira.
Nunca me querem como um
cadáver
Ambulante que procria,
incumbem-me
Ser tudo no verbo, como
refém,
Dessa hora difícil pra achar
a chave
Da vida que por aí vai na asa
dessas
Emoções conhecidas como
intensas.
VI
Sou um ser interior, demiurgo
E profeta, de lira no meu
burgo
O enigma em pessoa, um e
vário,
Amarrado nesses nós do
mistério.
Criei as odes de Ricardo
Reis,
O Álvaro de Campos, também
Caieiro,
No tempo sonhos do mundo
gravei,
Falei de solidões de amargo
travo.
Fiz, como simulador de
emoções,
Que gente enxergasse da
identidade
Novas cenas, da existência
verdade.
Culminei no legado, que, por
razões
Do fado, pôs nas zonas da
cegueira
Esses ritos de minha canção
rara.
VII
Digo, nunca fui campeão de
nada.
Sou um fraco, sempre tomei
porrada.
Ninguém me salva, está na
colisão
Do viver com os outros meu coração.
Vejo muitos amigos senhores
de tudo,
Ao largo vão como gente sem
falha
Enquanto eu, o mais
imperfeito, na malha
Da ilusão persigo o mundo que
espalha
Minhas almas nessa hora do café.
No quarto tenho o meu pai, o
poema.
Meu jeito de ser só, mas
nunca a fama
Quero. Cartas de amor, leais,
até
Que me esforço para
escrevê-las puras,
Isentas de dor nas pancadas
duras.
*Cyro
de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta. Premiado no Brasil e exterior. Autor
de mais de 50 livros. É também publicado no exterior. Seus livros
infantojuvenis são adotados nas escolas do Brasil. Os destinados ao leitor
crítico são estudados em universidade. Membro da Academia de Letras da Bahia,
Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris
Causa da UESC.
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