| Edição 1934 |
RARIDADE LITERÁRIA: O LIVRO
CRESTOMATIA
O livro
CRESTOMATIA, publicado em várias edições pela Livraria Globo, Porto Alegre, e
organizado pelo Prof. Radagasio Taborda, é constituído por excertos escolhidos
em prosa e verso dos melhores escritores brasileiros e portugueses (Coelho Neto,
Eça de Queiroz, Rui Barbosa, Camões…). Essa obra foi adotada nos cursos de
Admissão ao Ginásio, ginásios e escolas normais do Brasil durante as décadas de
30 a 60 e era dividido em duas partes. Os textos da primeira parte destinavam-se
aos seguintes temas: narrativas e lendas, dissertações, moral e religião,
descrições, geografia, história, biografias, humorismo, fábulas e anedotas. Os
textos da segunda eram apólogos, alegorias, sonetos, poesia lírica,
descrições, odes, poesia épica, sátiras e epigramas. Os
conhecimentos de gramática eram passados de forma indutiva e a cargo
da criatividade do professor ao ministrar as aulas. Pretendia-se com esse livro
alimentar o gosto pela leitura dos bons escritores e ministrar aos alunos o
cabedal indispensável à formação do seu espírito, bem como à sua educação
literária. O objetivo primordial era formar alunos competentes no uso da língua,
com boa retórica e eloquência, que dominassem perfeitamente a ortografia e o vocabulário. Era preciso também ter
bastante treino na leitura em voz alta, saber as técnicas para recitar versos e
dominar a linguagem e dicção para qualquer tipo de exposição oral. Assim, o aluno tinha um
panorama completo das diferentes formas de construir um texto.
Hoje, as
edições do livro Crestomatia são objeto de disputa entre colecionadores e bibliófilos.
Dentre os muitos textos cujas leituras
me proporcionaram particular deleite há dois que merecem destaque especial:
DISCURSO SEM VERBOS e a poesia HISTÓRIA DE UM
CÃO, por isso aproveito o ensejo para transcrevê-los aqui:
DISCURSO SEM VERBOS
D. Antônio de Macedo
Costa
Primeira regra de estilo,
uma das principais, e porventura a mais esquecida de todas: a naturalidade por
oposição à afetação ridícula. Quanto autor no galarim da fama, réu deste delito,
e quantos oradores aliás dignos de encômios pelos dotes singulares do seu
engenho e imaginação, responsáveis perante a crítica sisuda por falta de uma
nobre simplicidade no estilo e boleio de suas frases! Muita atenção, orador
noviço, para este ponto capital. Nada de ornatos supérfluos, apegados como
parasitas a cada palavra: miserável ouropel por cima de pensamentos muitas vezes
ocos, sem solidez alguma, só para engano da vista de espíritos superficiais ou
de mau gosto. Um brilho fosforescente e um deslumbramento passageiro, como o de
um fogo de artifício, – tal o único mérito desses campanudos oráculos do púlpito
cristão. Ideias, porém, sólidas, bem deduzidas, ordem rigorosa de raciocínio,
doutrinas exatas, lealmente expostas, isso nunca!
Não assim os
Bossuet, os Bourdaloue, os Massillon, e todos os outros grandes modelos de
eloquência do púlpito do grande século de Luiz XIV.
Que nobre
simplicidade!… que naturalidade sublime! Que opulenta sobriedade! Qual rio
caudaloso por entre margens, ora severas e escarpadas, ora floridas e risonhas,
mas sempre formosos de naturalidade, assim o pensamento desses famosos gênios
por entre a frase, ora simples, ora mais ornada, sempre, porém, em relação com o
assunto, cheia de graças ingênuas, de louçainhas despretensiosas.
Luíz Guimarães (1847)
Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo
Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim - mau grado seu - o vim trazendo.
O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o... o sol nas ondas se abismava...
Adeus! - me disse- e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.
Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.
Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.
Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda - caminhava errante
À luz da lua - tristemente uivando
Toussenel: Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.
Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo
Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:
Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais - todas francesas.
Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira...
Mil coisas mais de que me não recordo.
Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.
Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e - creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.
Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, - e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.
Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.
E respirei! Graças a Deus! Já posso
Dizia eu, viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo.
Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca cismadora.
Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.
Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E - de cansado - foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.
Praguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.
E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo
Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos...
De instante em instante ia o tufão crescendo.
Chamei Veludo: ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.
Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vagamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo - e com furor remamos
Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.
No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente...
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.
Voltei à terra - entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas moribundo.
Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei – oh, grande dor! - haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: - eu tinha-o unido
Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.
Certo caíra além, no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo
Duas vidas tivera - duas vidas
Eu arrancara àquela besta morta
E àquelas vis entranhas corrompidas.
Nisto senti uivar à minha porta.
Corri, - abri... Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés - e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.
Fôra crível,
oh, Deus? - Ajoelhado
Junto do cão - estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
