Por Cyro de Mattos
Vem contribuindo para que o mundo
mantenha portas e janelas abertas, o sol acenda manhãs, o vento sopre momentos
que somam. Das formas primitivas às técnicas de editoração moderna, com esse amigo, como o braço ao abraço, os
seres humanos aprendem que os dias de exercitar
a existência e conhecer o outro
ficam menos falhos.
O padre Antônio Vieira disse certa
vez que “o livro é um mudo que fala, um
surdo que responde, um cego que via, um morto que vive.” Acho
que a fala da nossa maior figura
da oratória sacra combina com o que eu
li num para-choque de caminhão: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal
vê.” Verdade. Hoje, na minha terceira
idade, reli O Pequeno Príncipe, de
Antoine Saint-Exupéry, a seguir O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway.
Saí depois para a vida rejuvenescido.
De cabeceira ou de bolso, o livro é
esse fiel amigo por vias e arredios,
capaz de
dizer silêncios por meio dos sinais visíveis da escrita. .
Fiquei certa vez abatido por conta da
afeição que nutro por esse amigo. Quando morei na fazenda São Bernardo, nas
imediações de Ferradas, chão onde nasceu o
romancista do mundo Jorge Amado e o poeta Telmo Padilha, os
livros que trouxe do Rio de Janeiro ficaram encaixotados até que pudesse
comprar uma estante digna de recebê-los. E, numa noite sem estrelas, a chuva
caiu pesada na terra centenária. O
telhado velho da pequena casa não suportou o volume da água que corria por
entre as calhas. Em pouco tempo, poças
d’água formaram-se em vários cantos da casa por causa das goteiras.
No outro dia, eu encontrei molhados
os caixões que guardavam velhos amigos. Lembro que apressado fui retirando do
primeiro caixão Além dos Marimbus, de
Herberto Sales, Uma Vida em Segredo,
de Autran Dourado”, Poesias, de
Manuel Bandeira, O Salto do Cavalo
Cobridor, de Assis Brasil, Fábulas,
de La Fontaine, Dom Quixote, de
Cervantes, Obras Completas, de Franz
Kafka,
Timeless Stories for Today and Tomorrow, de Ray Bradbury, Hamlet, de Faulkner, The Grass Harp, de Truman Capote, O Muro, de Sartre, e A Moveable Feast, de Ernest Hemingway.
Foram os livros mais atingidos pela chuva que
caíra naquela noite cortada por
relâmpago e trovoada. Páginas manchadas, letras borradas, capas danificadas.
Ainda tentei salvá-los, espalhando-os abertos no passeio para que fossem
aquecidos pelos raios de um sol tímido.
À noite peguei no sono como um herói inútil. Acordei
deprimido no outro dia. Aqueles que não consegui salvar tinham me ofertado ricos momentos de leitura, horas de
sonho e palavras de amor varando as madrugadas. Madrugadas do homem solitário,
que, no silêncio da noite, lograva
extrair sentidos da vida com
aqueles companheiros especiais. Jamais esqueci isso.
De uns tempos para cá, a incorporação
dos meios eletrônicos pela sociedade fez com que o nosso amigo livro mudasse o
suporte. A versão digital de um
livro impresso é o livro eletrônico. É
adquirido por meio de download para ser lido no monitor do seu micro e impresso
na sua impressora. Entre as vantagens dessa migração do nosso amigo, você tem
com a biblioteca arquivada em seu micro. Ou com o uso do dicionário em
instantes durante a leitura. E ainda mais: encontrar trechos com rapidez de
segundos.
Não se pode deixar de considerar que,
por motivos alheios à sua vontade, em
caso de uma pane no circuito de energia elétrica, você pode perder sua
biblioteca digitalizada no abrir e fechar do olho.