Escrevi e concluí este poema que vai abaixo, no dia mesmo do falecimento da grande poeta Myrian Fraga. Diante disto e da comoção que senti, resolvi dedicá-lo a ela. Segue com duas ilustrações, uma foto dela e o detalhe de uma obra prima de Vincent Van Gogh, "Céu Estrelado" (1889), onde ela agora deve serenamente estar - entre as estrelas.
CONTEMPLAÇÃO DOS DIAS
(À poeta Myriam Fraga, in
memoriam)
Florisvaldo Mattos
Quando a luz da inocência
nos sequestra
e o vento beija a face das
jaqueiras,
é quando de alma saio porta
afora,
para deslumbre inaugural
dos olhos
voltados para a terra,
enfeitiçados.
Paro e começo a vislumbrar
meu mundo.
Convido-os a ir comigo pela
aurora
e por clareiras de fecundos
vales;
por colinas, encostas e
ladeiras,
de onde escorre um lençol
de suavidade,
que cinge, cobre e invade
corpos e almas,
faiscando em cores quando o
sol se põe.
Vou por caminhos vastos de
mim mesmo.
Entre flores silvestres e
tabuas,
vivo, como se o sol tivesse
mãos
e o dia respirasse nos meus
passos.
Caminho pela tarde e já
descubro
um concerto de deuses em
simpósio:
Diana à frente a caçar
perdizes; Ceres
nua, junto à água, na arte
de semear.
A inocência possui muitos
idiomas,
que fraseiam manhãs, tardes
e noites
e a cada um dos sentidos
condecoram
com medalhas de amor da
natureza.
Adornando belíssimo
silêncio,
logo nos prende a música
dos ramos:
um papagaio remete da
forquilha
urgentes telegramas pela
brisa;
a voz de guriatãs por entre
folhas;
a do sabiá (que digam os
que o ouviram)
e a dos curiós no arame das
pastagens,
ou ameaças de carcarás
bravios.
Convido-os mais, a ver da
serra, ao longe,
alta e azul, o recorte
melancólico,
com que, serena, rege as
urdiduras
do despencar da chuva sobre
os campos.
E, acima, o céu de azuis e
claridades,
ou de repente céu de negras
nuvens,
onde se tece o cipoal de
crenças,
que faz o homem dormir mais
sossegado.
Uma extensão de flores, um
jardim,
me faz lembrar o poeta dos
aromas,
o de ardências sensuais e
de crepúsculos,
que um dia me levou ao belo
e ao mar.
Ah, venham conhecer o mar
de verdes
e este céu de ternura que
nos cobre.
Tudo nos favorece
gentilmente
o correio das brisas
delatoras.
Louros e sapucaias, calmos
cedros,
maçarandubas e jequitibás,
quantas vezes beijei suas
raízes,
ao calor de manhãs, sempre
insensíveis
ao arbítrio das tardes e
das noites.
Recolhem seu mutismo
venerável
e o guardam no candor da
consistência,
ante a inviolada paz que
lhes dá vida.
Vibro. Quero sentir na
plenitude
essa glória de ver e
contemplar
o luxo de existir que um
poeta viu
em clareira de deuses e
anjos farta.
Daqui percebo o sol se
despedindo
das montanhas, das águas e
das pedras
e, entre nuvens de cores,
vindo a noite,
para nutrir de sonhos quem
trabalha.
Atentem. Agora não mais
verão
o desfraldar dos ecos e das
flores;
um galope de luzes nos
visita
e se abre em cortinado o
firmamento.
E nele, em cima, o terno
olhar da lua,
igualmente os de estrelas
piscadores,
que, longe, o homem há
milênios ignoram,
sem dele nunca serem
ignorados.
Amo esta terra, doce, única
e funda,
que enche as amadas horas
de meus dias
com as instantâneas formas
debuxadas
no claro céu, nos campos e
nos montes;
vivas, na música que os
rios cantam,
até mesmo no sopro útil e
rude
forjado em búzio, em cobre
ou alumínio,
que assalta as tardes,
alertando as gentes.
(SSA/BA,15/02/2016)
